Penas ao vento. Por Roberto Cavalcanti


Roberto Cavalcanti, empresário e diretor da CNI

Os primeiros versículos de Gênesis, livro da Bíblia, contam como Deus criou tudo que existe. “E disse Deus: Haja luz; e houve luz”. Usou apenas o poder de sua palavra para separar “águas e águas”, fazer aparecer “a porção seca”, as árvores, aves e animais… o homem e a mulher.

Esse livro, escrito há mais de 3.500 anos, registra a luz como primeira criação. Hoje, a ciência confirma que sem ela nada existiria. Então, permitam-me não duvidar do poder da palavra, não só da de Deus, mas também da nossa.

Aprendi que o que a nossa mente concebe e nossos lábios expressam, pode criar ou destruir. Que fofocas, boatos e mexericos podem fazer estragos irreparáveis.

E não adquiri esse conhecimento apenas por atuar na área de Comunicação. Em mim sempre foi forte a consciência do valor da reputação, tanto para a vida pessoal ou profissional como para uma marca (pessoa jurídica).

Não é sem razão que o mundo debate os estragos das “fake news”, que ameaçam tanto democracias consolidadas como negócios. Essa estratégia de manipulação da opinião pública exige conhecimento, tecnologia e financiamento, mas outras igualmente perigosas podem ser acionadas apenas pela falta de princípios.

Tem uma parábola judaica que dimensiona os efeitos das difamações.

Recorro a ela em razão de minha preocupação com a campanha eleitoral deste ano, que, por tudo o que o Brasil tem vivido, pode ser transformada em um vale-tudo.

A história inclusive inspirou cena do extraordinário filme “Dúvida”, com Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman, que trata de reputação.

Diz que certo homem andou pela cidade caluniando um sábio local. No final do dia, tomando consciência do dano que causara, foi até sua vítima para pedir perdão, protificando-se a qualquer reparação.

O sábio fez apenas um pedido: que seu caluniador apanhasse um travesseiro de penas, subisse na torre mais alta da cidade e o abrisse, deixando que o vento as levasse. Embora intrigado, cumpriu seu desejo.

– Estou perdoado? – indagou ao retornar da missão.

– Primeiro, volte lá e recolha todas as penas – respondeu o sábio.

– É impossível! O vento já as espalhou – disse, angustiado.

– Assim como a reparação do dano causado pelas suas palavras – lamentou o sábio.

Como toda parábola, tem uma lição: a palavra dita não pode ser recolhida. Um mexerico aparentemente “inocente” tem poder destrutivo. Não espalhe nada levianamente.

Os atuais boatos, fuxicos, difamações, injúrias, ou seja, qual for a denominação que recebam, não têm nada de singelos. São planejados para atingir um objetivo. E ficam ainda mais perigosos considerando a amplitude e a velocidade que alcançam nas redes sociais.

A mentira tem sido usada como “arma” eficaz na guerra pelo poder. A frase, “uma mentira repetida mil vezes se torna uma verdade”, que é atribuída a Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda de Adolf Hitler, virou máxima, aplicada sem pudor no esforço de manipulação de mentes.

Como as penas, a difamação é fácil de espalhar. Como as penas, é quase impossível a reparação. Se não houver rigor e perspectiva de punição, será a democracia brasileira que sofrerá neste 2018.

Impossível encerrar sem registrar outro legado da sabedoria judaica: “Uma só mentira, é apenas uma mentira. Duas, são duas mentiras. Mas três, aí já se trata de política!”

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